Na quinta passada, o Banco Central contou quanto o setor público pagou de juros em 12 meses: R$ 1,2 trilhão. Dá cerca de R$ 5,6 mil por brasileiro. Esse número é o centro de uma briga que esquentou depois da eleição.
A notícia
Quatro fatos se juntaram nos últimos dez dias.
O mercado levou um susto com a eleição. Lula foi reeleito no segundo turno de 25 de outubro. No dia seguinte, o dólar subiu 8,21% e fechou a R$ 5,40, a maior alta em um dia desde janeiro de 1999. A bolsa caiu 13,88%, a maior queda desde março de 2020, e o pregão chegou a ser interrompido pelo circuit breaker, o freio automático da B3. Boa parte dos investidores tinha apostado na vitória do adversário e precisou desfazer as apostas.
A conta veio em forma de cobrança. O recado que analistas e investidores repetiram foi um só: quer ver o governo gastar menos para a dívida parar de crescer. Em 27 de outubro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, prometeu mandar ao Congresso um pacote para cumprir o centro da meta fiscal, um superávit de 0,25% do PIB em 2026, mas não detalhou as medidas. No mesmo dia, o Tesouro recomprou cerca de R$ 10 bilhões em títulos para acalmar os juros.
A conta de juros bateu recorde. Em 29 de outubro, o Banco Central divulgou os números de setembro. Em 12 meses, o setor público pagou R$ 1,205 trilhão de juros, ou 8,99% do PIB. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB (R$ 11,1 trilhões). Já o déficit sem contar juros, o chamado primário, foi de R$ 5,5 bilhões no mês.
Uma proposta virou disputa política. O economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, propôs em setembro baixar a Selic aos poucos até cerca de 7,5% ao ano em 12 meses, com um conselho que coordene juros e gastos. Gleisi Hoffmann (PT) elogiou a ideia. O ministro Dario Durigan disse que “tabelar” juros não está em pauta e negou reunião marcada entre Lula e Lara Resende.
No meio disso, as apostas do mercado pioraram. O Boletim Focus de segunda (3) passou a prever inflação de 4,76% em 2027 (era 4,34% uma semana antes) e Selic de 12,50% no fim de 2027 (era 11,75%). Na quarta (4), o Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano e interrompeu a sequência de cinco cortes seguidos.
O que significa
Para você, a Selic em 13,75% tem dois lados. O crediário, o cartão e o empréstimo pessoal ficam caros, porque os bancos partem dela para cobrar. Em compensação, quem tem dinheiro aplicado em renda fixa ganha bem.
O dólar mais caro também chega até você, só que mais devagar. O trigo do pão, o combustível, remédios e peças têm preço ligado ao dólar, e o aumento aparece nas prateleiras semanas ou meses depois. Já a bolsa em queda parece assunto só de investidor, mas é um termômetro: mostra que quem compra ações espera juros altos por mais tempo e empresas vendendo e lucrando menos. E mexe com quem tem previdência privada ou fundo com parte em ações.
Para o governo, a conta é mais pesada. Mais da metade da dívida federal (51,6% em setembro, segundo o Tesouro) está em títulos de taxa flutuante, quase todos corrigidos pela Selic. Então, cada vez que o Banco Central sobe os juros para segurar preços, a conta de juros do próprio governo sobe junto, quase na hora.
É por isso que um déficit primário pequeno, de R$ 5,5 bilhões no mês, vira um déficit total de R$ 113 bilhões quando se somam os juros. Em setembro, quase todo o déficit veio dos juros.
O conceito por trás
A Selic é o freio da economia. Juro alto deixa o crédito caro, as pessoas compram menos, as empresas sobem menos os preços e o dólar tende a ficar mais barato. É assim que o Banco Central tenta trazer a inflação para a meta de 3%. Em setembro, ela estava em 4,58% em 12 meses, acima do teto de 4,5%, segundo o IBGE.
Um freio que demora a pegar
Pense num caminhão carregado descendo a serra. O motorista pisa no freio agora, mas o caminhão só para lá na frente. Com os juros é igual. Primeiro o crédito encarece; depois as famílias adiam compras; depois as empresas vendem menos, seguram reajustes e contratam menos. Só então a inflação cede. Por isso o Copom não mira o mês que vem, e sim um horizonte de cerca de um ano e meio: na ata de setembro, era o primeiro trimestre de 2028.
O lado ruim é que esse freio funciona justamente desacelerando a economia. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, depois de 1,1% no primeiro, com queda no consumo das famílias, segundo o IBGE. O Focus prevê crescimento de 1,2% em 2027. Se o Banco Central pisar demais ou por tempo demais, a desaceleração vira recessão, e o remédio contra a inflação passa a custar empregos. Economistas chamam isso de custo da desinflação.
Por que o mercado fala em cortar gastos
“O mercado” são bancos, gestoras e investidores que emprestam dinheiro ao governo comprando títulos da dívida. Se acham que a dívida vai crescer sem controle, pedem juros maiores para continuar emprestando e tiram dinheiro do país. Resultado: bolsa cai e dólar sobe, como no dia seguinte à eleição.
Aqui entra uma ideia central da economia: as expectativas. O que as pessoas esperam muda o que acontece. Se o mercado espera inflação maior, cobra juros maiores hoje, o dólar sobe e parte da inflação esperada vira inflação de verdade. Na leitura do mercado, um corte de gastos em que as pessoas acreditem inverteria essa roda: com menos dívida pela frente, o risco cai, o dólar acalma e o Banco Central ganha espaço para baixar os juros.
Só que cortar gastos também tem custo: menos dinheiro circulando desacelera a economia, do mesmo jeito que o juro alto. E há quem lembre que, em setembro, o déficit veio quase todo dos juros, não dos gastos.
Quando o freio aquece o motor
O problema aparece quando o freio também aquece o motor. Com metade da dívida ligada à Selic, juro alto aumenta a dívida. Dívida maior deixa o mercado desconfiado, o dólar sobe, o dólar alto encarece produtos e a inflação pede mais juro. Economistas chamam esse risco de dominância fiscal: quando o estado das contas públicas atrapalha o efeito dos juros sobre os preços.
Aqui está a divisão do debate:
- Para Lara Resende, o Brasil já está nessa armadilha. Juro alto custa caro, segura pouco a inflação e é a principal causa do déficit. A saída seria baixar a Selic de forma combinada com metas fiscais, usando as reservas em dólar para evitar disparada do câmbio.
- Para a maioria do mercado e do Banco Central, o juro alto ainda funciona e é a resposta a uma inflação acima do teto e a expectativas que pioraram. Baixar à força, sem um plano fiscal, faria o dólar subir e a inflação voltar, e os juros acabariam ainda mais altos.
Minha leitura
Lara Resende acerta no diagnóstico. Um país que paga quase 9% do PIB de juros e tem metade da dívida atrelada à Selic sente cada aumento de juro duas vezes: no bolso das famílias e no caixa do governo. E a inflação continua acima do teto mesmo com a Selic cerca de 9 pontos acima da inflação. Isso, no mínimo, mostra que o remédio está funcionando menos do que deveria.
Onde eu tenho dúvida é no caminho. Baixar a Selic por decisão política, logo depois de uma eleição que já fez o dólar subir, pode confirmar o medo do mercado em vez de desmontá-lo. O que me parece mais promissor é atacar a causa do lado do Tesouro: diminuir aos poucos o peso dos títulos ligados à Selic e apresentar um plano fiscal para 2027 com números. Isso abre espaço para o Banco Central cortar porque quer, não porque foi mandado.
O melhor argumento contra a minha leitura: esperar o plano fiscal pode levar anos, e enquanto isso o país segue pagando R$ 1,2 trilhão por ano. Para quem pensa assim, a coordenação proposta por Lara Resende é justamente o atalho que falta.
Para levar
- Juro alto é um freio que demora: age em cerca de um ano e meio e funciona desacelerando a economia. Pisado demais, vira recessão.
- Ele pesa duas vezes: no seu crédito e na dívida do governo, porque metade dela acompanha a Selic. Em 12 meses, foram R$ 1,2 trilhão de juros.
- Dólar, bolsa e Focus reagem ao que o mercado espera das contas públicas. A briga é sobre como baixar os juros sem disparar dólar e inflação: cortando gastos, coordenando juros e gastos, ou as duas coisas.
Para ir além
Juros, Selic e expectativas têm aulas próprias no curso Economia para Iniciantes.
Fontes
- Agência Brasil: dólar sobe 8,21% e bolsa cai 13,88% após a reeleição (26/10/2026)
- O POVO: Fazenda promete pacote para buscar o centro da meta fiscal (28/10/2026)
- Banco Central, via CNN Brasil: dívida bruta de 82,9% do PIB e juros de R$ 1,205 trilhão em 12 meses (29/10/2026)
- Tesouro Nacional, Relatório Mensal da Dívida de setembro
- Forbes Brasil: Boletim Focus de 3/11/2026
- Banco Central, ata da 281ª reunião do Copom (22/09/2026)
- Jornal do Comércio: PIB do 2º trimestre (IBGE)
- IBGE, via Diário do Grande ABC: IPCA de setembro (09/10/2026)
- CNN Brasil: semana do Copom (02/11/2026)
- Seu Dinheiro: a proposta de Lara Resende e a resposta de Durigan (02/11/2026)
- André Lara Resende, “Eu Acuso” (25/09/2026)

